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Praticagem no Arco Norte, o conhecimento que nenhum GPS entrega

A expansão acelerada do agronegócio brasileiro rumo ao Arco Norte que, hoje, é um dos principais corredores de exportação de soja e milho do país, só é possível graças a um serviço que opera muitas vezes longe dos holofotes, mas que é absolutamente decisivo para a segurança e a eficiência da navegação, a praticagem.

Em uma região marcada por rios imprevisíveis, bancos de areia móveis, variações bruscas de profundidade e milhares de quilômetros de hidrovias ainda em desenvolvimento, o trabalho dos práticos tornou-se o elo invisível que conecta a produção agrícola do Centro-Oeste e a produção regional aos portos estratégicos da Amazônia.

Prevista na Lei de Segurança do Tráfego Aquaviário (Lei 9.537/1997), e regulamentada pela Marinha, a praticagem é o serviço por meio do qual práticos, profissionais altamente especializados, que embarcam nos navios e orientam comandantes em manobras críticas. Levando em consideração a bacia amazônica, isso significa atuar em um dos ambientes mais complexos do planeta para navegar.

As cheias e secas remodelam constantemente o leito dos rios. Bancos de areia “caminham”, alterando a rota a cada mês. Canais estreitos, águas barrentas, correntezas fortes e margens instáveis compõem um cenário em que cartas náuticas e tecnologia são essenciais, mas nunca substituem a experiência de quem conhece cada curva, cada remanso, cada comportamento do rio.

O resultado desse trabalho aparece onde mais importa, que é na segurança. Inclusive, enfrentando secas históricas nos últimos anos e a região com registrou zero acidentes envolvendo navios de grande porte sob atuação da praticagem, segundo dados do setor.

A transformação logística do país tem nome e direção, o Arco Norte, composto por portos como Itaqui (MA), Vila do Conde (PA), Itacoatiara (AM), Santarém (PA), e Santana (AP), os quais se consolidaram como alternativas estratégicas ao tradicional eixo Sul–Sudeste.

Os portos do Arco Norte elevaram suas exportações de soja e milho de 36,7 milhões de toneladas em 2020 para 57,6 milhões em 2024, segundo a Conab. Um salto de 57%. Além disso, em 2024, o conjunto Arco Norte/Santos/Paranaguá respondeu por 81,2% das exportações brasileiras de grãos, sendo que a região Norte sozinha movimentou cerca de 38% desse fluxo. E, entre 2018 e 2022, a participação dos portos nortistas no escoamento de soja e milho cresceu 67%, consolidando a hegemonia de hidrovias e corredores fluviais como Tapajós, Madeira, Tocantins e Amazonas.

Esse novo desenho só existe, em boa parte, pela confiança na navegação amazônica construída diariamente pelos práticos, possibilitando segurança, eficiência e competitividade, e trazendo impactos diretamente na economia.

Ao conduzir as manobras, definir rotas seguras e buscar o aumento de calado seguro para cada navio, o prático promove a eficiência logística do agronegócio, fazendo com que cada centímetro a mais de carregamento signifique mais toneladas transportadas por viagem.

Em ambientes sensíveis como a Amazônia, a praticagem representa ainda a linha de defesa contra acidentes que poderiam paralisar rios inteiros, interromper a exportação de safras e gerar danos ambientais irreparáveis. A previsibilidade logística resultante desse trabalho é um ativo econômico de alto valor para produtores, tradings e armadores.

Não à toa, navios graneleiros que operam no chamado “Arco Lamoso”, trecho complexo do Rio Amazonas, frequentemente contratam práticos mesmo quando o serviço é facultativo, profissionalizando a segurança como estratégia de mercado.

A praticagem não aparece nas manchetes após as barcaças deixarem Miritituba e descerem o Tapajós para fazer o transbordo de cargas que cruzam o Amazonas e chegam carregados de grãos, ao Porto de Vila do Conde ou aos demais terminais do Pará, do Maranhão ou do Amapá. Mas é essa inteligência local, tecnicamente regulamentada e operada com rigor pela Marinha do Brasil, que garante a fluidez do maior corredor hidroviário do planeta.

Em um momento em que o país busca ampliar sua competitividade internacional, reduzir custos logísticos e consolidar o Arco Norte como o principal vetor de expansão das exportações agrícolas, reconhecer a importância da praticagem é reconhecer a própria engenharia invisível que faz o Brasil funcionar.

Afinal, nenhum porto cresce sem navios, nenhum navio chega sem segurança e nenhuma segurança é possível na Amazônia sem o conhecimento dos práticos.

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