Portal do Agro
Artigos Colunistas Destaque

POR QUE A UNIÃO EUROPEIA FECHOU AS PORTAS PARA A CARNE E OVOS DO BRASIL?

Nessa semana, ganhou espaço na imprensa a notícia de que a União Europeia (UE) decidiu restringir a importação de carnes, ovos e outros produtos de origem animal do Brasil. Para o produtor rural, o frigorífico, o técnico de campo e até para o consumidor, a pergunta é direta: o que exatamente aconteceu, por quê, e o que isso tem a ver com o uso de antibióticos na pecuária?

Este é o primeiro de uma série de quatro artigos sobre o tema em que eu começo explicando o cenário e as razões oficiais da medida, sem perder de vista o pano de fundo político e comercial envolvido.

 

O que a União Europeia decidiu?

A União Europeia não “proibiu” de uma hora para outra todas as carnes brasileiras. O que ocorreu foi um endurecimento das regras sanitárias e de rastreabilidade para que um país possa constar ou permanecer na lista de exportadores habilitados para o bloco.

Já há tempos se sabe que as restrições do uso de antibióticos iriam chegar, a EU avisou e deu prazos, mas parte das autoridades não levaram isso a sério. A agroindústria, entendendo a seriedade do tema se antecipou e muitos antibióticos foram banidos da avicultura e suinocultura de grandes integrações, mas a pecuária, mais relapsa poderá sentir mais os impactos das restrições da UE.

A mensagem foi clara

Se o Brasil não demonstrar, com dados e sistemas confiáveis, que cumpre as novas exigências em relação ao uso de antimicrobianos e à rastreabilidade, poderá ser retirado da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal para a UE.

Entre os produtos na mira estão:
  • carne bovina e animais vivos para abate;
  • carne de aves e suínos;
  • ovos e ovoprodutos;
  • leite e derivados;
  • pescado e produtos aquícolas;
  • mel e outros produtos de origem animal.

A medida atinge, sobretudo, cadeias produtivas que vendem carne e ovos com maior valor agregado, em nichos que pagam um prêmio pela qualidade, sanidade e rastreabilidade. É exatamente o caso da UE: não é o maior comprador em volume, mas é um mercado importante em preço e reputação.

 

O ponto central: antibióticos e resistência antimicrobiana

A justificativa oficial da União Europeia está ligada à preocupação com a resistência aos antimicrobianos. Para entender o que isso significa, é preciso dar um passo atrás.

Antibióticos são medicamentos usados para combater infecções causadas por bactérias e outros microrganismos. Eles são fundamentais tanto na medicina humana quanto na medicina veterinária. O problema é que, quando usados de forma inadequada ou excessiva, favorecem o aparecimento de microrganismos resistentes, isto é, microrganismos difíceis de serem  combatidos com os antibióticos atuais.

A “criação” e microrganismos resistentes aos antibióticos pode, com o decorrer do tempo, tornar infecções humanas mais difíceis de tratar; aumentar o tempo de internação hospitalar, elevar os custos de saúde e aumentar exponencialmente o risco de morte de pacientes contaminados com essa bactérias resistentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a resistência antimicrobiana uma das maiores ameaças à saúde pública mundial neste século. Por isso, vários países e blocos econômicos vêm apertando o controle sobre o uso de antibióticos em animais de produção.

A União Europeia, em especial, criou um dos sistemas mais rigorosos do mundo. Entre as principais exigências estão:
  • proibição de antibióticos como promotores de crescimento;
  • forte restrição ao uso de antimicrobianos considerados “críticos” para a medicina humana (como certas cefalosporinas, fluoroquinolonas e a colistina);
  • limitação do uso preventivo em massa, por longos períodos e em doses baixas;
  • rastreabilidade detalhada: a autoridade europeia precisa saber, com segurança, de onde veio o animal e como foi tratado ao longo da vida.

A preocupação europeia não é apenas com resíduos de antibióticos na carne, leite ou ovos, mas também com o impacto global do uso desses medicamentos sobre a resistência bacteriana.

 

O papel do Brasil nesse contexto

O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de carne do mundo. Essa posição de destaque coloca o país sob forte escrutínio dos importadores, especialmente daqueles que adotam normas mais rígidas, como a União Europeia.

Nos últimos anos, o Brasil avançou em vários pontos:

  • restringiu o uso de antibióticos como promotores de crescimento, tendo recentemente retirado 3 importantes princípios do mercado;
  • ampliou programas oficiais de controle de resíduos em produtos de origem animal;
  • modernizou frigoríficos voltados à exportação;
  • fortaleceu alguns protocolos sanitários, especialmente em cadeias integradas de aves e suínos.

Entretanto, persistem gargalos importantes, que são justamente o alvo das críticas europeias:

  1. Rastreabilidade incompleta na bovinocultura
    Diferentemente de muitas cadeias de aves e suínos, bastante integradas e padronizadas, a bovinocultura brasileira é muito heterogênea. Há milhões de cabeças espalhadas em propriedades de tamanhos e níveis tecnológicos muito diversos. Isso dificulta acompanhar a vida do animal “do berço ao abate”, o que a UE considera essencial
  2. Desigualdade de práticas entre fazendas
    Enquanto algumas propriedades trabalham com assistência técnica, registros sanitários detalhados e manejo de alto padrão, outras ainda têm uso de medicamentos pouco controlado, registros incompletos e menor biosseguridade. Para a UE, não basta ter ilhas de excelência: o sistema como um todo precisa mostrar consistência.
  3. Integração limitada de dados sanitários
    O país possui diferentes bancos de dados, programas e certificações. A União Europeia cobra algo mais integrado e auditável, que permita relacionar o produto que chega ao porto europeu ao histórico sanitário do animal ou do lote de origem.

Ou seja, a União Europeia está exigindo o que os pecuaristas brasileiros claman a anos, desde a criação do SISBOV, que nunca entregou o que propôs. Assim, do ponto de vista europeu, o Brasil ainda não consegue comprovar de forma suficiente que todo o sistema pecuário atende, de maneira uniforme, aos novos padrões de uso de antimicrobianos e de rastreabilidade.

 

Técnica, política e protecionismo: tudo misturado

Embora a motivação sanitária seja real e respaldada por organizações internacionais, é impossível ignorar a dimensão política e econômica da decisão europeia.

A União Europeia é também grande produtora de carnes, leite e ovos. Quando endurece regras sanitárias, ela atende à pressão de consumidores e organizações que pedem mais cuidado com saúde, meio ambiente e bem‑estar animal. Ao mesmo tempo, cria barreiras de entrada para concorrentes externos, como Brasil, Argentina, Estados Unidos e outros países exportadores.

Essas barreiras, conhecidas como barreiras não tarifárias são bastante eficientes e diferentemente das tarifas (impostos de importação), elas se baseiam em exigências técnicas, sanitárias, ambientais ou de bem‑estar animal. Muitas vezes, têm fundamentos legítimos, mas também acabam funcionando como proteção para a produção local.

É fundamental ter uma visão equilibrada sobre o tema, pois existe um problema real e comprovado de resistência antimicrobiana no mundo, que exige mudanças na forma de usar antibióticos na pecuária. No entanto, há também interesses econômicos de produtores europeus em reduzir a competitividade de países com uma pecuária mais eficiente, como o Brasil.

Para o produtor brasileiro, discutir se a medida é “justa” ou não é menos importante do que entender que o padrão de exigência do mercado mudou e não adianta chorar o leite derramado, é preciso se adaptar para não perder mercado.

 

O que vem nos próximos artigos

Com este primeiro artigo, buscamos responder à pergunta inicial: por que a União Europeia fechou, total ou parcialmente, as portas para carnes, ovos e outros produtos animais do Brasil? Vimos que o centro da discussão está no uso de antibióticos e na capacidade de provar, com rastreabilidade e dados, que o país segue padrões considerados seguros.

No próximo texto da série, vamos “entrar na fazenda” e entender quais antibióticos são usados na pecuária brasileira; por que eles são necessários; o que o Brasil já fez para reduzir e controlar esse uso; e até que ponto estamos ou não fazendo a lição de casa pedido pela União Europeia.

No terceiro artigo, vamos olhar para o bolso: os impactos concretos dessa decisão no preço do boi, nas cadeias de aves e suínos e no futuro da pecuária nacional. E no quarto e último artigo vamos discutir sobre as opções técnicas eficientes para substituir os antibióticos.

 

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO ABAIXO:

Related posts

Ferrovia de Mato Grosso chega ao pico de contratações com cerca de 5 mil trabalhadores em atividade

Juan Monteiro

Produtores recebem curso para combate à doença vassoura-de-bruxa em cupuaçuzeiros

Redação Portal do Agro

Termo de Referência Compartilhado e intervenientes da União, estados e municípios

Redação Portal do Agro

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Nós vamos assumir que você está bem com isso, mas você pode optar por sair se quiser. Aceitar Ler mais

Política de Privacidade & Cookies