O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China confirmou dois focos de febre aftosa em rebanhos bovinos no Noroeste do país. A informação foi divulgada em comunicado oficial nesta quinta-feira (02/04) e rapidamente chamou atenção de autoridades de saúde animal de todo mundo, bem como do setor agropecuário mundial. Os casos, confirmados em 28 de março pelo Centro Chinês de Prevenção e Controle de Doenças Animais, no Laboratório de Referência para Febre Aftosa, chamam a atenção pelo tipo do vírus envolvido e pela dimensão do surto.
Os focos ocorreram no condado de Yining, na prefeitura de Ili, província de Xinjiang, e no condado de Gulang, na cidade de Wuwei, província de Gansu. Ao todo, 6.229 bovinos foram afetados, dos quais 219 apresentaram sinais clínicos da doença.
A FEBRE AFTOSA
A febre aftosa é uma doença viral altamente contagiosa que atinge animais de casco fendido, como bovinos, suínos, ovinos e caprinos. Ela causa febre e feridas na boca, na língua e nos cascos, provocando dor intensa, dificuldade para se alimentar e se locomover, queda na produção de leite e perda de peso. Embora não acometa humanos e não seja considerada um grande risco à saúde pública, o impacto econômico é significativo. As medidas sanitárias quando um caso é identificado são padronizadas pela WOAH (Organização Mundial de Saúde Animal) e os países devem seguir rigorosamente à risca. Dentre essas medidas estão o abate sanitário de animais, isolamento de propriedades foco e um raio a partir delas, e restrições ao comércio de animais e produtos de origem animal daquele país.
Diante dos focos, a China reagiu com rapidez. O governo reforçou os controles nas fronteiras, acelerou campanhas de vacinação e iniciou o abate de animais nas áreas afetadas, além de intensificar a desinfecção de instalações, veículos e equipamentos utilizados na pecuária. Segundo as autoridades chinesas, o vírus teria origem externa, o que aumenta a preocupação com o trânsito internacional de animais e produtos.
Esta é a primeira vez que o sorotipo SAT‑1 do vírus da febre aftosa é detectado na China. Esse sorotipo é endêmico em países africanos e não é comum na Ásia. As vacinas usadas rotineiramente no país asiático são voltadas principalmente para os sorotipos O e A, mais frequentes na região. Embora alguns analistas digam que que essas vacinas não protegem contra o SAT‑1, como veterinário que trabalhou por mais de 15 anos com febre aftosa eu afirmo que as atuais vacinas PODEM não ter o feito desejado, mas melhor elas que nada. Um esforço na busca e importação de vacinas específicas já está em andamento, assim como estratégias de imunização e vigilância sanitária animal.
O MERCADO
Um surto de febre aftosa em um grande produtor como sempre pode afetar fluxos comerciais e gerar incertezas nos mercados internacionais de carne e lácteos. A capacidade do Serviço Chinês de Saúde Animal está posta à prova, mas como as informações vindas de lá são sempre dosadas pela mídia estatal, precisaremos analisar tudo com muita cautela. Para o Brasil, que trabalha para manter e ampliar o status sanitário de livre de febre aftosa sem vacinação, o episódio serve como sinal de alerta e reforça a importância da vigilância permanente e do reforço do sistema de fiscalização sanitária animal.
A febre aftosa permanece como tema nevrálgico para a pecuária mundial, incluindo para países já livres da doença. A cooperação entre países, a transparência na comunicação de surtos e o investimento em pesquisa e tecnologia são peças-chave para reduzir riscos e garantir a segurança dos sistemas de produção de alimentos.

