Nos dois primeiros artigos desta série, vimos por que a União Europeia (UE) endureceu as regras para importar carnes, ovos e outros produtos do Brasil e como o uso de antibióticos na pecuária está no centro do debate. Agora, a pergunta é: o quanto isso poderá mexer no bolso do produtor? E o que muda no futuro da pecuária brasileira?
Qual é o peso da União Europeia para a carne brasileira?
A União Europeia não é o principal destino da carne bovina brasileira e essa ameaça de restrição não tem grande impacto sobre o volume exportado. O maior mercado da carne brasileira é o mercado local. Dentre os importadores, a China (52,22%), Estados Unidos (6,05%) e Hong Kong (5,20%) são os maiores importadores, e a União Europeia (EU) responde por somente 3,39% das exportações brasileiras.
Mas se o volume é tão baixo, por qual motivo tanta preocupação com a possibilidade do bloqueio? Além de pagar mais caro pela carne, a UE é balizadora de carne de qualidade. Ser barrado nesse mercado pode não ser bem-visto por outros compradores.
Impacto no preço do boi
Eu sempre digo que o boi sobe no fato e desce no boato, mas e agora? Será que a arroba mantém a tendência de alta ou estaca?
O ano está sendo de fortes emoções para o pecuarista brasileiro; é febre-aftosa na China, febre-aftosa na Rússia, falta de vacina contra constridioses e agora mais essa. Não há dúvidas de que a pressão de baixa foi reforçada, mas não devemos entender isso como um colapso imediato com uma queda abrupta nos preços. Se, por um lado, temos essas pressões, por outro, temos a baixa oferta de animais em todo o mundo, ou seja: apesar dos escorregões, o boi seguirá escalando!
Avicultura e suinocultura se adiantaram às restrições aos antibióticos
As medidas restritivas da União Europeia não afetam somente a pecuária bovina, as regras valem também para aves, suínos, leite, pescado, ovos e mel.
Como as aves e os suínos têm cadeias mais fechadas e melhor estruturadas, eles se anteciparam e logo que surgiu a tendência de banimento de antibióticos, as principais integrações criaram regras até mais rígidas sobre seus sistemas de criação para não perderem mercado e ganharem competitividade com quem não se adaptasse.
Os monogástricos são mais sensíveis ao tema antibióticos, pois o nível de intensificação é tamanho que gerou uma necessidade histórica do uso desses medicamentos. No entanto, percebendo que o banimento não tardaria, passou a adotar alternativas aos antibióticos e hoje temas como: betaglucanos purificados, algas, algoclay, mananoligossacarídeos e parede de levedura são comuns no vocabulário de nutricionistas e sanitaristas de aves e suínos.
Exemplo da porteira adentro, falhas graves porteira afora
As exigências europeias escancaram o que muitos pecuaristas e técnicos vêm falando há tempos: que nosso sistema de rastreabilidade é extremamente complexo, mas ainda assim falho, pois não entrega as certificações que o mercado internacional exige.
Apesar do desconforto causado por essa restrição, não há dúvidas de que isso impulsionará mudanças.
Veterinários e zootecnistas passarão a ser mais exigidos nas propriedades, com um possível registro de utilização de fármacos e aditivos que possivelmente passarão a ser exigidos nos registros de rastreabilidade.
A mudança de medicamentos por biossoluções, tal como vem acontecendo na avicultura e suinocultura, é um caminho sem volta para a pecuária. Se ontem utilizávamos virginiamicina, bacitracina e outros fármacos para auxiliar no ganho de peso, hoje e amanhã estaremos envolvidos em biossoluções sustentáveis, tecnicamente eficientes e economicamente vantajosas.
Os probióticos, prebióticos e outros aditivos nutricionais se tornarão comuns em confinamentos, e não adianta espernear; o mercado é quem dita a regra! Controles de ambiência, qualidade da água, alimentos e o uso de adsorventes de micotoxinas ganham espaço para reduzir a incidência de doenças. E para quem ainda não entendeu: a regra mudou!
A pecuária entrou em um caminho sem volta. O pecuarista tradicional é quem mais sofrerá pela resistência à mudança. O pecuarista moderno aproveitará a onda e surfará em parceria com os grandes grupos frigoríficos, que têm capacidade de segmentar fornecedores e implementar sistemas de rastreabilidade confiáveis e colocar sua carne em todo o mundo. Assim como aconteceu na avicultura, a bovinocultura caminha para um novo modelo de integração. Mais livre, mais versátil, mas com uma grande interdependência entre produtores e frigoríficos. Não sei se será o fim das rusgas entre produtores e frigoríficos, mas certamente é mais um passo muito importante para isso.
Riscos e Oportunidades
Para o Brasil, existem ao mesmo tempo riscos e oportunidades com as novas exigências da União Europeia. Se o país demorar a se adaptar, pode perder espaço em mercados de alto padrão, ter sua imagem prejudicada em temas como segurança dos alimentos e resistência a antibióticos e abrir caminho para que outros países ocupem os nichos mais sofisticados. Por outro lado, o Brasil pode aproveitar os avanços já feitos em aves e suínos como exemplo de boas práticas, valorizar sistemas a pasto bem manejados, que normalmente usam menos antibiótico, e se apresentar ao mundo como um grande fornecedor de carne produzida com uso responsável de medicamentos, fortalecendo a “marca” da carne brasileira.
Antibiótico não pode, mas e os hormônios, que todo o mundo usa?
Para bons técnicos, é difícil contestar as razões das restrições da União Europeia aos antibióticos, mas e as restrições aos hormônios e aos agonistas beta-adrenérgicos amplamente utilizados em todo o mundo que o pecuarista brasileiro não pode usar? Não seria essa a hora dos nossos negociadores, diplomatas, adidos colocarem todos os fatos expostos e, quem sabe, fazer desse limão uma limonada, talvez até uma caipirinha?

