Portal do Agro
O pesquisador francês atua como professor na Universidade de São Paulo e visitou Macapá.
Destaque Notícias

“O Amapá pode ganhar muito fornecendo frutos e alimentos para a Guiana”

Um cientista francês fala das perspectivas para a cooperação transfronteiriça entre o Brasil e a Guiana Francesa, com a abertura da ponte sobre o Rio Oiapoque.Trata-se do professor Hervé Théry , que atualmente atua também na Universidade de São Paulo (USP), e que faz reflexões a respeito dos entraves mas também dos avanços que brasileiros e franceses já conseguiram a respeito das possibilidades de trocas comerciais, culturais e intelectuais a partir da ligação física entre o Amapá e a Guiana Francesa. Casado com uma brasileira e andando pelo Brasil há quase quarenta anos, Hervé Théry fala um bom português e concedeu uma entrevista exclusiva ao jornalista Cleber Barbosa, do Portal do Agro, a respeito de diversos temas relacionados à cooperação. Acompanhe os principais trechos a seguir.

Cleber Barbosa, da Redação

Portal do Agro – Professor, o senhor é de que região da França?
Hervé Théry – É complicado, eu nasci no Norte, me criei no Oeste e moro em Paris, então sou um francês desenraizado, né?

Portal – Mas a cidade onde o senhor nasceu se chama como?
Hervé – Chama-se Sonoma, mas é completamente desconhecida, é muito pequena…

Portal – Bem, e no período em que o senhor morou lá, uma região que tem muitos países próximos, não é mesmo, fazendo fronteira?
Hervé – Sim, próximos, menos de sessenta quilômetros da Bélgica, é muito próximo de lá.Portal – E como se dá essa relação fronteiriça, não apenas com a Bélgica, mas com outros países próximos da França?
Hervé – Bom, até 1993 era uma fronteira mesmo, tinha que apresentar passaporte e tudo. Agora, com a União Européia, não tem mais fronteira, acabou, tiraram as guaritas, tiraram tudo e a gente não pára, só desacelera na pista dupla, vai sem parar.

Portal – Então como é para o senhor atravessar o Atlântico, apesar de estar radicado hoje em São Paulo, mas vir ao Amapá onde o seu país tem a maior fronteira que a França possui com qualquer outro país do mundo?
Hervé – É, eu sabia, pois sou geógrafo, tenho que saber essas coisas, mas é interessante realmente e eu falei sobre essa transformação na Europa para dizer que espero que aqui aconteça a mesma coisa, pois fronteira não é para separar, normalmente é para unir, então eu gostaria muito que a abertura dessa ponte seja a ocasião para melhorar as relações, facilidade para cruzar, para conviver e para trabalhar juntos.

Portal – A estrada do lado francês, entre Saint George e Régina foi feita dentro de um conceito de estrada-parque, com limites de toneladas por eixo diferente do Brasil, isso pode atrapalhar o transporte de carga?
Hervé – É verdade, mas por enquanto isso não pesa muito porque a previsão do trânsito nessa estrada por enquanto é pequena, então para os anos que vem não tem muito problema. Se mudar, podemos repensar, mas esta foi a condição da criação desta estrada. Uma vez criada se pode repensar quando for necessário, mas ainda não é o caso.

Portal – Professor, e com relação às trocas comerciais, é muito grande a expectativa por parte do Brasil sobre a possibilidade do comércio acontecer, apesar das medidas de protecionismo da União Européia. Como o senhor vê essa situação?
Hervé – Eu acho que tem até acordos locais, pois a Agência Francesa de Desenvolvimento está autorizada a promover, ajuda em investimentos da faixa de fronteira, que inclui, no caso, o Amapá inteiro e nesse caso qualquer mercadoria produzida nesta área, conjuntamente, entra em franquia. Então essa é uma das soluções que eu vislumbro, fazer empreendimentos conjuntos, uma coisa que eu cito sempre são frutos tropicais, que o Amapá tem muitos, basta ser enlatadas aqui, conjuntamente, para entrar em franquia, eu acho que enquanto tem dificuldades de acordos, mas acordos se mudam e já está sendo contemplado um acordo do Mercosul com a União Européia, que resolveria. Tem esse tipo de solução, de boa vizinhança.

Portal – A comunidade científica está se debruçando e produzindo trabalhos de pesquisa sobre o tema das relações transfronteiriças entre o Brasil e a Guiana Francesa, então o que poderá advir com o centro de biodiversidade franco-brasileiro?
Hervé – Um intelectual como eu sempre vai dizer que produzir conhecimento já é um fim em si, mas claro que eu gostaria de ver isso sendo usado e é realmente um terreno de experiência formidável, pois os dois países têm muito a descobrir sobre biodiversidade e o seu uso. Não são só as belezas da biodiversidade, mas saber o que fazer com ela, então os dois países tem o que aprender sobre os erros e os acertos do outro. Eu gostaria muito que a cooperação franco-brasileira fosse simétrica, não é um país desenvolvido ajudar a um país subdesenvolvido, não é mais o caso, tem muitos casos que o Brasil tem muito a ensinar para os franceses também. Temos todas as condições para uma cooperação simétrica agora.
Portal – E onde a soberania dos dois países pode atrapalhar, pode podar essa troca de informações?
Hervé – Não necessariamente, um corpo de doutrina que está bem estabelecido, como se trata de uma fronteira, a França, como você mesmo mencionou, tem uma porção de fronteira e já temos uma boa experiência de trabalhar com Bélgica, Espanha, Itália, enfim, não vou fazer a lista toda, e tem mecanismos de cooperação fronteiriça, tem carteira para os habitantes circularem, tem um monte de possibilidades a serem usadas. O Brasil ainda não tem muito costume porque é um país gigante que tem fronteira a maior parte do tempo em lugares vazios. A única região que tem realmente muito trânsito é na no Rio Grande do Sul, bem longe daqui, mas isso se aprende rapidinho.

Portal – Existem muitos brasileiros na região do Platô das Guianas com algum tipo de pendência judicial no Brasil, o que ajuda a arranhar a imagem do nosso país perante os moradores da Guiana, que ainda assim tem no brasileiro uma mão de obra necessária, o que o senhor acha disso tudo?
Hervé – É tem essa imagem, mas eu fui várias vezes em Caiena e quando você conversa com as pessoas dizem que quando se que arranjar trabalho de pedreiro… Então tem que arranjar brasileiro, porque dizem que eles bem, trabalham rápido, são sérios, então a imagem dos trabalhadores urbanos é muito boa, não é só os garimpeiros, os garimpeiros ninguém gosta porque realmente estragam a natureza. Mas eu não diria que a imagem do Brasil é só negativa, ela tem também aspectos positivos.

Portal – Há quanto tempo o senhor mora em São Paulo?
Hervé – Em São Paulo são seis anos, mas ando nesse país há quase quarenta anos e casei com uma brasileira que ajuda bastante também né? [risos]

Portal – Então para a gente terminar, duas perguntas mais amenas. Que características do povo brasileiro o senhor diria que já assimilou?
Hervé – Bem, tem gente que diz que não só o brasileiro, mas eu “caboclizei” (sic!), eu considero um grande elogio hein? [mais risos]

Portal – E que característica francesa o senhor não larga de jeito nenhum mesmo morando no Brasil?
Hervé – Eu continuo chegando na hora e esperando as pessoas chegarem… [risada]

Perfil

Entrevistado. O pesquisador francês Hervé Théry nasceu em 4 de dezembro de 1951 em Somain, França. É geógrafo político radicado no Brasil, mais precisamente na cidade de São Paulo. Théry ajudou a introduzir no Brasil os conceitos e métodos da geografia regional francesa, profundamente renovada nos anos 1980 e 1990, especialmente a modelização gráfica (coremática). Fez seu doutorado em Geografia na Universidade de Paris (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é pesquisador no Centre de Recherche et de Documentation sur l’Amérique Latine (CREDAL) do Centre National de la Recherche Scientifique em Paris, professor convidado da USP, e pesquisador convidado da Universidade de Brasília, a UNB.

DEIXE SEU COMENTÁRIO ABAIXO:

Publicações Relacionadas

Por força da justiça, propriedade rural tem escritura definitiva liberada no Amapá

Redação Portal do Agro

Segura peão! Rodeio da 1ª ExpoBúfalo reúne 15 competidores amapaenses

Redação Portal do Agro

Nova ferramenta permite comparar tanto o desmatamento quanto a recuperação de florestas

Redação Portal do Agro