No primeiro artigo desta série, vimos por que a União Europeia (UE) endureceu as regras e anunciou estrições às importações de carnes, ovos e outros produtos de origem animal brasileiras. O ponto central é o uso sem controle de antibióticos na pecuária e o risco de aumento da resistência antimicrobiana, ou seja: da indução à criação de superbactérias!
Nesse artigo eu te convido a passar para o lado de lá da porteira, entendendo quais antibióticos são usados na pecuária brasileira, e se são tão importantes assim. O que a UE está proibindo e até que ponto o Brasil está fazendo a lição de casa?
Quais antibióticos são usados na pecuária?
São inúmeros os antibióticos utilizados na pecuparia para tratar e prevenir doenças bacterianas. Os grupos mais comuns são:
- Tetraciclinas – amplamente usadas em bovinos, suínos e aves, sobretudo em doenças respiratórias e diarreias.
- Macrolídeos – importantes em doenças respiratórias de bovinos em confinamento e de aves.
- Cefalosporinas – algumas gerações são críticas na medicina humana; usadas em infecções mais graves, como certos casos de mastite.
- Fluoroquinolonas – também críticas para humanos, reservadas para infecções mais sérias.
- Polimixinas (colistina) – foram muito usadas em aves e suínos e hoje são alvo de fortes restrições.
No dia a dia, esses medicamentos são empregados para tratar doenças respiratórias, mastites, diarreias em bezerros e leitões, metrites e infecções pós‑parto e surtos em sistemas intensivos, onde muitos animais convivem em alta densidade.
Como os antibióticos são usados – onde está o problema?
Podemos dividir o uso de antibióticos em três grandes categorias:
- Tratamento de animais doentes
Animal adoece, o veterinário diagnostica e prescreve o medicamento adequado. É o uso mais aceito. - Metafilaxia
Quando alguns animais de um lote ficam doentes, trata‑se todo o grupo para evitar que o surto se espalhe. É comum em confinamentos, granjas de suínos e aves. - Uso preventivo coletivo e promotor de crescimento
Historicamente, em vários países, antibióticos foram usados em doses baixas, misturados à ração, por longos períodos, para prevenir doenças e aumentar ganho de peso. Esse uso contínuo, sem indicação clínica favore a seleção de bactérias resistentes.
A União Europeia mira justamente nessa terceira forma, proibindo antibióticos como promotores de crescimento; restringindo o seu uso preventivo; limitando o uso de moléculas críticas para a medicina humana.
Não basta afirmar que “usamos com responsabilidade”: é preciso comprovar que não há uso sistemático em baixa dose nem uso amplo de medicamentos considerados essenciais para tratar pessoas.
O que a UE exige dos exportadores
Para exportar carnes, ovos e outros produtos para a UE, o país precisa demonstrar que seu sistema produtivo:
- proíbe ou controla rigorosamente o uso de antibióticos como promotores de crescimento;
- restringe os antimicrobianos críticos, deixando‑os para situações específicas e bem justificadas;
- mantém registros detalhados de tratamentos (que medicamento, em que animal ou lote, dose e duração);
- garante rastreabilidade, ligando o produto ao animal ou lote de origem, com histórico sanitário;
- possui programas oficiais de monitoramento de resíduos em carne, leite, ovos, mel e pescado.
A preocupação dos europeus não é só com resíduos no alimento, mas com o modelo de uso de antibióticos ao longo de toda a cadeia.
O que o Brasil já fez
O Brasil avançou em pontos importantes:
- Restrição a promotores de crescimento
Diversas moléculas foram proibidas ou limitadas para essa finalidade, alinhando‑se a recomendações internacionais. - Programas de controle de resíduos
Órgãos oficiais monitoram resíduos de medicamentos em produtos de origem animal, verificando se estão abaixo dos limites permitidos. - Modernização de frigoríficos exportadores
Unidades que vendem para mercados exigentes investiram em controles internos e rastreabilidade de lotes. - Avanço em aves e suínos
Cadeias integradas, com forte presença de agroindústrias, adotaram protocolos de uso racional de antibióticos, registros mais completos e melhor rastreio de lotes.
Esses movimentos apontam para a direção correta, mas ainda não atendem todas as demandas da União Europeia.
Brasil – principais gargalos
Os europeus apontaram três principais fragilidades do nosso sistema:
- Rastreabilidade na bovinocultura de corte
Para a surpresa de ninguém, as autoridades brasileiras não conseguiram comprovar a eficiência do seu sistema de rastreabilidade. Os europeus exigem uma rastreabilidade de toda a cadeia, e a falta de identificação individual sistemática, registros sanitários padronizados e regulares torna praticamente impossível provar que determinado boi abatido não recebeu antibióticos em desacordo com as regras exigidas. - Heterogeneidade de práticas
O país convive com fazendas altamente tecnificadas e propriedades com pouca assistência técnica e quase nenhum registro estruturado.
Alguns casos de mau uso de medicamentos podem comprometer a imagem de toda a cadeia perante a UE. - Integração de dados sanitários
Existem bases de dados públicas e privadas, certificações e selos. Falta, ainda, uma integração robusta que permita rastrear, de forma nacional e auditável, origem, sanidade e uso de antimicrobianos.
Caminhos para atender às exigências
Para se aproximar do padrão europeu, o Brasil precisaria primeiramente fortalecer o seu sistema de fiscalização zoossanitária federal e estaduais. Também precisa implementar:
- Programas de uso racional de antimicrobianos
Rever as regras e orientar veterinários e produtores no tocante ao uso desses fármacos. - Rastreabilidade
Repensar o sistema de rastreabilidade bovina, pois o atual não atende aos pecuaristas nem ao mercado internacional. - Alternativas aos antibióticos
Incentivar o uso de probióticos, prebióticos, aditivos nutricionais, controle de micotoxinas e manejo de estresse ajudam a diminuir a incidência de doenças. - Melhorar o marketing do nosso produto
As carnes brasileiras estão entre as melhores e mais seguras do mundo, mas falhamos em falar disso para nossos consumidores do resto do mundo. É preciso parar de pregar para convertidos.
Estamos fazendo a lição de casa?
De forma objetiva: o Brasil avançou, mas ainda não atende plenamente ao padrão europeu, sobretudo na bovinocultura de corte.
A avicultura e a suinocultura estão mais próximas das exigências, graças à forte integração com a indústria e à maior padronização. Já a cadeia bovina, mais pulverizada, terá de investir mais em rastreabilidade, registros e manejo sanitário.
No terceiro artigo desta série, eu abordarei como essas novas regras podem impactar o preço do boi, as cadeias de aves e suínos e o futuro da pecuária brasileira no mercado internacional

