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Especialista mostra como plantar pasto para colher proteína de origem animal de altíssima qualidade | Foto: Plantasonya
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Marcus Rezende: O controle de plantas daninhas

Marcus Rezende, Colunista.

Já se foi o tempo em que para produzir bovinos ou búfalos, bastava fazer uma boa compra, abrir as porteiras e deixar os animais entrarem para engordar no pasto com um “salzinho” no cocho. Em tempos em que o preço do boi de reposição sobe dia a dia, o bezerro supera as máximas históricas e o frigorífico paga mais na novilha que pelo boi; conseguir colocar uma cabeça a mais por hectare pode fazer a diferença entre o lucro e prejuízo da fazenda.

E como ter mais bois por hectare? Simples: tendo mais pasto! Mas a simplicidade para por aí, pois isso exige uma mudança profunda no mapa mental do pecuarista que deve passar do extrativismo pecuário para o de plantador de pasto. Isso mesmo; plantamos pasto e colhemos proteína de origem animal de altíssima qualidade: carne e leite!

IMPACTO DAS PLANTAS DANINHAS

Com cerca de 160 milhões de hectares de pastagens, o Brasil é seguramente o país com maior potencial de produção à pasto de todo o mundo. No entanto, uma boa parte dessa área apresenta algum grau de degradação provocado por erros de manejo e, principalmente, pela infestação por plantas daninhas.

Essas plantas, erroneamente chamada de invasoras por muitos, competem com o pasto por nutrientes do solo, agua, luz e justamente por não serem invasoras, mas plantas adaptadas ao microambiente em questão, acabam tomando espaço do pasto (este sim invasor) e provocando a redução do vigor e até mesmo morte dos cultivares utilizados como pasto. Dependendo da variedade de pastagem utilizada, o efeito sobre o pasto poderá variar do aumento da relação talo folha, diminuição do teor nutricional da pastagem, redução na capacidade de suporte do pasto, início do processo de degradação da pastagem e consequente depreciação da área.

PRINCIPAIS PLANTAS DANINHAS

Foto de ANA LÍGIA GIRALDELI, do Blog da Aegro sobre gestão no campo e tecnologias agrícolas, Dezembro de 2018.

Enumerar as plantas que causam dor de cabeça ao produtor exigiria um compêndio e não um simples artigo, afinal: em cada região há uma coleção de plantas características com desafio de combate igualmente distinto.

Plantas de fácil, médio, difícil e até mesmo de extrema dificuldade de controle são encontradas em todo o Brasil e dependendo do estágio vegetativo, idade, quantidade de roçadas já realizadas, mesmo plantas que seriam de fácil controle podem se tornar de difícil controle graças à capacidade de adaptação das mesmas.

Por isso, a primeira atitude do produtor que intenciona limpar seus pastos é chamar um técnico para fazer o levantamento de área. Antes, principalmente, de comprar qualquer produto ou contratar qualquer equipe de aplicação, pois muitas vezes vejo técnicos tendo que fazer adaptações nas aplicações em decorrência de compras feitas no balcão das lojas, sem que ninguém tenha ido na fazenda, andado nos pastos e feito o levantamento para que seja feito o trabalho adequado. E isso pode até mesmo ser economicamente benéfico ao produtor, pois o desafio de um ano subsequente a uma aplicação bem-feita, será certamente mais fácil que no ano anterior.

Uma planta que, a pedido dos amigos do Amapá, eu gostaria de destacar é algodão bravo Ipomoea carnea Jacq , uma planta tóxica para bovinos e caprinos quando ingerido a parte apical da planta.

Fonte: imagem da internet (http://www.plantasonya.com.br/cercas-vivas-e-arbustos/caracteristicas-e-cultivo-do-algodao-bravo-ipomoea-carnea.html)

ALGODÃO BRAVO

Ipomoea carnea Jacq. Resp. UFRGS | Fotógrafo: Edemar Ferreira | RS, Arroio do Tigre, Perto do Rio Jaquirana Arroio do Tigre (RS)

O algodão bravo é um arbusto rustico, florífero e seu caule é ramificado e ereto, suas folhas são cordiformes (folha em forma de coração) e acuminadas (folhas pontiagudas) com porte variável de 1 a 4 metros de altura. Sua presença está em solos com maior quantidade de matéria orgânica. A sua multiplicação é um caso à parte, pois se o pecuarista tiver ela em sua propriedade e realizar roçadas das áreas, a planta como tem o hábito de multiplicação por estaquia, mergulhia e por sementes pode ter sua disseminação acelerada. É uma planta bem tolerante a estiagem prolongada, queimadas e inundações situações adversas que para outras espécies seriam um problema para o algodão bravo são partes de seu ciclo de vida.

Voltando a falar sobre a toxicidade da planta, ela pode levar até a morte dos animais, nos estudos realizados entre os efeitos que sua ingestão pode causar estão incoordenação (pode atacar o sistema nervoso dos animais), apatia, fraqueza e o quadro clínico é de difícil recuperação. Os animais tendem a consumir a parte mais tenra da planta (brotos e porções finais do caule) em casos aonde não tenham disponibilidade de capim adequada para consumo. Um ponto de atenção é que depois de algum tempo, os animais podem viciar no consumo da planta e isso torna o problema ainda mais sério.

Nossa sugestão seria atacar duas frentes: ter uma boa disponibilidade de forragem para os animais, isso evitaria a procura de outras fontes para complementar sua alimentação e o controle desta planta por meio de herbicidas, para isso o ideal é contar com uma equipe especializada de sua região que irá realizar o diagnóstico e recomendação do período adequado para controle da planta e assim evitarmos ter perdas de animais.

VASSOURA DE BOTÃO

Fonte: Adaptado Circular Técnica EMBRAPA n°54, Acumulo de nutrientes por vassourinha de botão, planta daninha de pastagens na Amazônia.

Outra planta predominante do bioma Amazônico e em áreas de transição dos biomas cerrado para amazônico é a vassoura de botão, Spermacoce verticillata. Esta planta é nativa da América Tropical, introduzida em outras regiões do mundo como, Estados Unidos, Europa e África.

É uma planta com ciclo de vida perene, reprodução exclusiva por sementes, porte herbáceo com altura podendo atingir 80 cm, caule ramificado e sistema radicular pivotante que pode alcançar grandes profundidades. É uma planta rústica e tolera solos ácidos e pobres em nutrientes. Nos biomas citados mais acima é uma espécie que vem infestando áreas de pastagem cultivadas e vem sendo utilizada como indicador de uma área que pode estar em estágio de degradação ou degradada dependendo de sua infestação.

Foto da Vassoura de botão. Fonte: Adaptado Circular Técnica EMBRAPA n°54, Acumulo de nutrientes por vassourinha de botão, planta daninha de pastagens na Amazônia.

Seu controle efetivo não é dos mais difíceis, apenas deve ser considerada o estágio da planta, assim como a quantidade de roçadas caso tenha sido roçada e ser realizada uma recomendação ideal de herbicida para seu controle por uma equipe de técnicos capacitados.

Em ambas as plantas o que mais nos preocupa como técnicos e que pode passar despercebido pelo pecuarista é a competição que elas têm por nutrientes, luz solar e água com a gramínea cultivada ou nativa da área, o que pode acarretar em menor produtividade do pasto, atrasando ou reduzindo o lucro do pecuarista.

PARALELO MALUCO

Gosto muito de fazer um paralelo do manejo de duas pragas bastante conhecidas pelo pecuarista. O manejo das plantas daninhas e o controle de carrapatos em gado leiteiro; digo que tem grande semelhança pois em ambos os casos, se o perder a mão, tratar errado ou atrasar para iniciar o combate, a dor de cabeça e o prejuízo será enorme. E em ambos os casos, um profissional conhecedor do ciclo das pragas pode ser a diferença entre o sucesso e insucesso no tratamento. Da mesma forma, não tardar no tratamento e já fazer o tratamento ideal de início, favorece muito os bons resultados.

LINCOLN BREMM OLIVEIRA

MsC. Zootecnista; Sumitomo Chemical Pastagens | Instagram: @lincolnboliveira LinkedIn: @lincolnbremmoliveira

O colunista

(*) Marcus Rezende é Médico Veterinário com Mestrado em Ciência Animal, MBA em Gestão Empresarial e Marketing com mais de 15 anos de experiência nos mercados Brasileiros e América Latina. Colunista do Canal Terra Viva, do Portal do Agro e nesse ano estará escrevendo também para o Jornal Cooasgo., além de Gerente de Trade Marketing da Sumitomo Chemical. Autor e coautor de livros e cartilhas voltadas para o agronegócio e saúde animal, além de diversos artigos científicos, Marcus é o nosso novo colunista.

 

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