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Se você pudesse voltar no tempo e levar a inteligência artificial junto, o que perguntaria a ela?

O galo canta às 5 da manhã nas Quatro Bocas. O telefone de Geraldo acende em cima da mesa rústica de angelim-pedra que enfeita a cozinha, onde o fogão a lenha já está fumegando. Entre uma golada de café e outra, ele passa os olhos pelas mensagens do grupo da fazenda e confere os grupos da Casa da Roça. Vê o preço do boi, do cacau, a previsão de estiagem e assiste a um vídeo do meteorologista Marco Antônio Santos dizendo que, neste ano, o El Niño castigará a região sul do Pará e do Marcus Rezende falando dos riscos da micotoxinas na silagem do gado. No meio disso, um link sobre inteligência artificial que ele encara e ignora com o mesmo gesto automático de sempre: “Depois eu vejo isso.”

Geraldo não está sozinho. Enquanto muita gente já surfa na onda da IA, usando ferramentas novas todos os dias, pesando o boi com um aplicativo na palma da mão e conferindo expectativas de mercado em tempo real, muita gente ainda desconfia: acha que é modinha ou que “é coisa para empresa grande”. Outros, percebendo que perderam tempo, agora tentam correr atrás, conversando, fazendo cursos e assinando pacotes de IA para não ficarem totalmente de fora da onda. E uma pergunta simples começa a separar esses grupos: você, homem de negócios, do campo ou da cidade, como tem encarado a inteligência artificial?

Esta semana, o grande amigo e mentor Vilson Simon fez uma provocação no LinkedIn, perguntando: “Qual a frase que você precisava ter ouvido há dois anos sobre IA?” Isso me fez pensar e me trouxe a este artigo, no qual eu te pergunto: se você pudesse voltar cinco anos no tempo e encontrasse, lá atrás, a inteligência artificial que existe hoje, o que perguntaria para ela?

Não se trata de uma simples questão filosófica, mas de algo profundamente prático. Porque, no fundo, ela revela o que realmente importa para você: dinheiro, risco, família, tempo, sucessão, pessoas.

Nos últimos anos, o agronegócio viu margens apertarem, custos subirem, o clima enlouquecer e a pressão por eficiência aumentar. Quem já abraçou a IA começou a usar dados, simulações, previsões e automações para tomar decisões menos no “achismo” e mais em cenários. Quem ainda resiste continua se apoiando na experiência – valiosa, sem dúvida – mas cada vez mais insuficiente sozinha num mundo que muda na velocidade de uma notificação no celular. Ao mesmo tempo, desaprendemos olhar e escutar o mundo. Nossos avós sabiam que o clima iria mudar pela florada dos ipês, pelo cantar das cigarras ou pela cantoria das rãs.

O grande erro não foi simplesmente não aprender as “mandingas” dos mais velhos ontem, mas não entender de IA hoje. Tratar o assunto como se fosse coisa de outro planeta é, este sim, um comportamento de outro planeta – não deste. Achar que inteligência artificial é um robô de filme, e não uma calculadora turbinada, pronta para responder perguntas que você ainda nem formulou direito, é desperdiçar uma oportunidade. Enquanto isso, concorrentes discretos já usam IA para planejar safra, negociar melhor, organizar equipes e enxergar riscos invisíveis a olho nu.

A grande virada acontece quando você puxa a IA para perto e “passa para cima do arreio”, a ponto de transformar essa pergunta – “o que eu faria se tivesse dominado a IA há cinco anos?” – em perguntas concretas para hoje. Se Geraldo tivesse acesso, cinco anos atrás, à inteligência artificial que tem no celular agora, talvez tivesse perguntado: “Quais foram as piores decisões financeiras que tomei nos últimos anos e como eu teria feito diferente?” Ou: “Em quais momentos eu comprei ou vendi mal, e que sinais de mercado eu ignorei?” A IA não teria bola de cristal, mas poderia ter ajudado a simular cenários, comparar números, organizar dados e mostrar padrões que ele não via.

Na prática, usar inteligência artificial não é “virar empresa de tecnologia”. É fazer as coisas básicas com mais consciência, menos erros, menos risco: perguntar melhor, registrar mais, decidir em cima de cenários em vez de palpites puros. A diferença é que agora você tem um “cérebro auxiliar” sempre disponível, 24 horas por dia, para montar esses cenários em minutos.

Se você pudesse voltar cinco anos, talvez pedisse para a IA te mostrar quais clientes eram mais fiéis, quais fornecedores sufocavam suas margens, quais eram parceiros de verdade e entregavam valor e lucro, quais custos explodiam silenciosamente. Hoje, você pode pedir isso daqui para frente. Pode perguntar: “Quais são os três maiores riscos que eu não estou vendo no meu negócio?”, “Onde posso cortar desperdício sem perder qualidade?” ou “Que oportunidades estou deixando na mesa por falta de organização?”

Não é preciso virar um especialista em tecnologia para aproveitar a IA. Mas é crucial encarar duas perguntas incômodas: quais decisões ruins do passado eu não quero repetir, e estou disposto a utilizar uma ferramenta nova para evitá-las? Porque, gostemos ou não, a IA não é mais uma onda passageira. Ela é uma maré que já está mudando o desenho da praia, a posição das pedras e até mesmo os peixes do mar. E, quem fica parado, achando que está no mesmo lugar, que não se engane: está sendo levado, e pode se afogar.

A questão não é se você gosta ou não de inteligência artificial. A questão é se você está disposto a transformar os arrependimentos de ontem em boas perguntas hoje. E, para um homem de negócios, seja do campo ou da cidade, talvez a pergunta mais inteligente para fazer à IA seja esta: “O que eu preciso enxergar agora para que, daqui a cinco anos, eu não me arrependa de ter esperado tanto tempo para começar?”

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